Saturday, August 1, 2009

Mentirinha...

Quinta-feira de madrugada, saindo do trabalho, encontrei uma brasileira que trabalha no restaurante onde eu trabalhava antes. A Thais já esta la há mais de dois anos e é responsável por toda a cozinha. Ela estava indignada porque o dono do local queria que ela pagasse 15 euros de uma taxa para que ela fosse registrada. No Brasil quem contrata é responsável por todas as taxas e ela se recusou a pagar. Foi o maior bafafá no restaurante, ela disse que não ia pagar e eles discutiram feio.

Ela ainda estava brava porque quando a fiscalização foi ao restaurante – quando eu perdi meu emprego la – ela teve que assinar um documento reconhecendo que trabalha apenas dezoito horas por semana. “Dezoito horas eu faço em dois dias”, gritava ela.

Ontem foi a minha vez de me revoltar no restaurante onde trabalho agora. Logo que eu comecei, segunda-feira passada, o chef da cozinha disse que eu estava aprovada, que tinha gostado de como eu trabalhava, mas que ate eu pegar pratica teria que chegar mais cedo para ajudar com os preparativos. O dono do restaurante tinha combinado comigo das seis em diante, mas eu aceitei chegar as cinco no dia seguinte. Terça-feira la estava eu uma hora mais cedo. Descasquei umas duzentas batatas sozinha. O pessoal todo chegou as seis e ficou uma boa meia hora ainda fumando e conversando enquanto eu ralava sozinha.

Aqui na Itália não é como na Irlanda. Não se ganha por hora, mas por dia. Então eu chegando as cinco ou as seis da tarde meu salário não muda. Ou seja, não estava ganhando 1 centavo a mais para descascar todas aquelas batatas. No final daquele dia o chef da cozinha veio me pedir pra chegar mais cedo também no dia seguinte. Eu disse “Desculpe, mas não consigo porque tenho aula e um monte de coisas para fazer”. Ele me deixou em paz a semana toda, ate que ontem me pediu para que hoje, sábado, eu chegasse mais cedo.

Eu não tenho aula sábado – alias, eu não tenho mais aula dia nenhum, mas eles não precisam saber disso. Eu não tinha mais a desculpa de antes. Na hora em que ele me falou eu demonstrei que não tinha gostado – não consigo disfarçar – mas não falei nada. Fiquei pensando no que fazer. Não achava justo eu chegar mais cedo do que todo mundo para trabalhar sozinha sem ganhar a mais. E como eu poderia dizer isso a eles? Esse pessoal não liga em ser explorado, nem sabe o que é ganhar a mais por hora extra. Pensei em reclamar e dizer que se não me pagam a mais, não chego antes. Ou, dizer que chegaria as cinco e depois inventar uma desculpa qualquer para o atraso. A primeira opção poderia fazer com que me mandassem embora. A segunda ia deixar os caras bravos e eles iam começar a me pedir para chegar mais cedo todos os dias por puro capricho. Pensei, pensei e depois chamei o Rodrigo de canto.

O Rodrigo é o cara da Sirilanka. Não é o chefe da cozinha, mas o braço direito dele. Ele vive elogiando como eu trabalho e me ajudando quando preciso. “Vou te contar um segredo, Rodrigo, mas, por favor, não conte a ninguém. Eu tenho outro trabalho. Da uma as cinco da tarde trabalho como empregada domestica em uma casa de família. Eu só aceitei trabalhar aqui porque me disseram que seria das seis em diante. Mas não conte a ninguém, pois não gosto que saibam que eu trabalho limpando casas”. Ele me escutou atento e então disse que me entendia e que eu poderia chegar às seis. “É porque o Simone não trabalha direito, amanha o restaurante lota e temos que fazer tudo mais depressa”, disse-me ele. Eles que mandem o cara que não trabalha direito chegar mais cedo, então. “Eu entendo, é que infelizmente não consigo mesmo chegar mais cedo”, disse eu.

Só tenho que me lembrar agora que da uma as cinco eu trabalho como domestica e não posso me bronzear tanto.

No comments:

Post a Comment