Quem esta acompanhando a minha vida agora sabe quem é o Sergio. Ele me hospedou por um mês aqui na Itália sem nunca antes ter me visto pessoalmente. Foi viajar por uma semana e me deixou sozinha no apartamento, com todos os seus cinco computadores, duas bicicletas, televisão de plasma, coelho de estimação... E apesar de muita gente duvidar, ele nunca tentou se aproveitar da situação. Enfim, o Sergio é simplesmente a pessoa que confiou em mim antes mesmo de me conhecer e me ajudou mais do que muita gente que eu conhecia.
Apesar de tudo, descobri algo que abalou a minha confiança nele. Um dia, passamos rapidamente na casa dos seus pais. Enquanto ele copiava os documentos que precisava do computador, eu lia o diploma que estava pendurado na parede. Dizia que ele tinha se laureado em Ciências Sociais em Messina - como tinha me dito -, seu nome completo e data de nascimento: 12 de marco de 1964. Eu não sou ótima em matemática, mas rapidinho percebi que ele não tinha 35 anos como tinha me dito antes.
Fiquei em estado de choque. Fiz e refiz as contas umas dez vezes na minha cabeça. Ele falava comigo e eu respondia qualquer coisa, mas não conseguia parar de pensar nisso. Por que ele tinha mentido pra mim?
Dias antes, estávamos na praia conversando sobre o avião da Air France que caiu no caminho de Rio a Paris. Concordamos que essa seria a nossa morte ideal: viajando, assim de repente, tão rápido que pouco deve ter doido e sem passagem pelo hospital. Seu maior medo, disse-me, era o de ficar velho e não poder mais sair explorando o mundo com a mochila nas costas. Ter a mente jovem, mas o corpo frágil não conseguir acompanhar o espírito.
Passaram-se dias e eu nunca comentei nada com ele. O cara me ajudou tanto e se tornou tão amigo que pouco me importava se tinha 35 ou 45 anos. E, pensando bem, hoje eu o entendo perfeitamente. Pior, comecei a fazer o mesmo.
Outro dia estava eu, sozinha, na praia, quando chegou o salva-vidas e começou a conversar comigo. Eu não sei quantos anos ele tem, mas pela carinha deveria ter uns 22. Logo no inicio da conversa ele perguntou a minha idade. Ah, estou cansada da cara de espanto que me fazem quando digo a verdade! Mandei que ele adivinhasse. “Vinte e cinco”, respondeu ele. “Adivinhou!”, disse eu.
Fiz sem maldade, não precisaria enganar o rapaz, não tinha o menor interesse nele. Mas quando conheço gente muito jovem, na faixa dos 20 e poucos, eles se assustam de verdade quando digo que já tenho quase 30. E eu me sinto mais velha ainda. E isso nos distancia logo no inicio. Menti e depois fiquei pensando que tinha acabado de fazer o mesmo que o Sergio fizera.
Ontem, conversando a sos, ele me confessou sua idade. Eu disse que já sabia e contei do episodio na casa dos pais dele. Seu melhor amigo tem 25 anos e não sabe a verdadeira idade do Sergio. Senti-me privilegiada, pois ele me contou um dos seus maiores segredos.
Tanto eu quanto o Sergio levamos um estilo de vida “alternativo” para as nossas idades. Digamos que a maioria dos colegas de classe do Sergio a esse ponto já tenham filhos, são casados ou separados e não viajam por ai com mochila nas costas dormindo em saco de dormir. As meninas que estudaram comigo já estão formando família e com a carreira definida.
Mas, se eu tivesse que escolher, não trocaria a minha vida pela delas. Adoro minha liberdade. E não pense que ela não tem seu preço, pois tem. E custa caro. Às vezes, paga-se a liberdade com a solidão. Outras com um trabalho que não é aquele sonhado, mas que te permite pagar o aluguel no final do mês.
E assim como a liberdade, amo a vida. E ela também tem seu preço. Por que tudo que é bom custa tão caro? No caso da vida, a moeda são os anos e o preço é a velhice. Mas se só envelhece quem esta vivo, que venham os anos então. Só não precisam vir tão depressa...

Adorei seu texto.
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